Investidor Impacto, saúde & tecnologia

Impacto, saúde & tecnologia

A nova cara do empreendedorismo científico

Marcelo Souza — fundador da Bright Photomedicine

Você sabia que existem mais de 4 milhões de brasileiros aposentados por invalidez relacionada à dor?

Foi com o intuito de encontrar uma solução para essa questão que a Bright Photomedicine foi fundada em 2015. A startup foi acelerada pela Startup Farm logo em seu ano de fundação, e abriu uma captação no Kria na semana passada. A Bright trabalha em cima de uma tecnologia inédita para o tratamento de dores crônicas, e possibilita que pacientes sejam tratados a partir de luz! Para conhecer um pouco mais sobre o assunto, entrevistamos Marcelo Souza — cientista, presidente, diretor científico e fundador da empresa.

Marcelo é formado em física, com mestrado em física médica, doutorado em física aplicada à neurociência na USP e na Harvard Medical School, e revisor de 6 revistas científicas internacionais. Ao longo de sua carreira, escreveu mais de 30 trabalhos científicos e venceu o Prêmio CAPES de Melhor Tese de Doutorado. Conversamos um pouco sobre o atual momento do empreendedorismo científico, as maiores dificuldades de sua jornada até aqui, a escolha pelo crowdfunding de investimento e os próximos passos a serem dados pela empresa.

“Meu foco é usar conhecimento científico para resolver os principais problemas de saúde da humanidade”.

Qual a missão da Bright e o que te motivou a fundar uma empresa com esse propósito?

O propósito da Bright é aumentar o acesso das pessoas à saúde. Quando se pensa em tratamentos e terapias, se associa muito a remédios ou dispositivos médicos. A Bright pega o que há de melhor dos dois — usamos o medical device como um canal para levar o tratamento, que em última análise é como se fosse um remédio digitalizado. É fascinante, porque quando se digitaliza um processo, ele fica a um passo de se tornar exponencial — o Uber digitalizou o serviço de transporte, a Airbnb digitalizou o serviço de hotelaria, e a Bright está digitalizando o processo de fabricação e distribuição de novas terapias.

Como você enxerga o fato da Bright aliar tecnologia, ciência e impacto em um único negócio?

É interessante, porque a Bright é o tipo de negócio que é um pouco diferente do que as pessoas estão habituadas no mundo — não só no Brasil. É um negócio de empreendedorismo científico, e que tem suas peculiaridades e diferenças a respeito do empreendedorismo tecnológico. Então para nós do empreendedorismo científico, a tecnologia é uma ferramenta, e não o fim. Por exemplo, a gente não é uma empresa de IA, big data ou machine learning, mas usamos tudo isso. A gente não é uma empresa de saúde propriamente dita, mas nosso impacto é na saúde.

Como a sua formação e experiência prévia te ajudaram nessa jornada? Seja abrindo portas ou fornecendo a expertise para você colocar em prática a ideia por trás da Bright.

O fato de ter um cientista como fundador, o fato de eu ter feito graduação, mestrado e doutorado, ter recebido alguns prêmios internacionais e ter presidido vários conselhos é extremamente importante, porque faz com que a gente tenha um amplo domínio sobre a ciência, e esse domínio propicia o desdobramento de diversas tecnologias. Quando alguém investe na Bright, não está investido em uma empresa de um produto só — está investindo em uma empresa que está iniciando com um produto. Estamos focados em iniciar a aplicação para o tratamento de dor, mas o investidor pode ter certeza de um crescimento exponencial não só na área de dor, mas também em uma série de outras áreas. Não se trata de um produto, e sim um pipeline de produtos. Esses são um dos diferencias de ter um cientista como fundador da empresa.

Você venceu o Prêmio CAPES. Para quem não conhece, o que é esse prêmio?

O prêmio CAPES é o prêmio mais importante da ciência brasileira voltada a doutorandos. Em 2015, recebi uma menção honrosa na área de física e astronomia para minha tese de dourado. Para mim foi muito especial porque me abriu muitas portas. A comissão — formada pelos principais cientistas de cada área no país — analisam todas as teses inscritas que são produzidas no ano e selecionam as que consideram melhores — ou seja, com maior potencial de impacto científico para a humanidade. Isso é interessante porque é um reconhecimento para nossa pesquisa cientifica. É muito raro no Brasil uma pesquisa da chamada “ciência pura” virar uma empresa/startup. Estamos transformando uma ciência de altíssimo nível em tecnologia e fazendo produtos a partir dela.

Muitos perguntam: “Da onde vocês trouxeram isso? Em que lugar no mundo estão fazendo isso?”, e respondemos: “Não trouxemos de lugar nenhum, isso aí é a ciência brasileira da melhor qualidade!”.

Por se tratar de um produto que os consumidores não estão habituados, imagino que muitos ainda tenham dúvidas para entendê-lo. Como você explicaria a fotobiomodulação?

Eu explico o que a fotobiomodulação faz para a dor de uma maneira muito simples — é a forma como eu explico para os meus pais. Quando você tem uma dor no joelho, é como se ele estivesse conectado com o cérebro por meio de fios, que são os neurônios. Quando você sente a dor, o joelho liga para o cérebro e avisa “aqui está doendo”, e pede para liberar algum remédio/analgésico do próprio corpo. O que a gente faz na fotobiomodulação é atrapalhar essa comunicação — gerando um certo ruído. Diminuímos a percepção do cérebro sobre a dor e, ao mesmo tempo, avisamos ele para liberar mais remédios para combatê-la. Então além do estímulo que o próprio joelho já estava mandando para o cérebro, a gente liga para ele pedindo mais analgésicos — nós estimulamos o corpo a produzir mais dos medicamentos endógenos que o próprio corpo já produziria. É uma terapia de estímulo.

*endógeno — o que se origina no interior do organismo

Quais foram as maiores dificuldades na jornada da Bright?

A maior dificuldade tem muito a ver com a pergunta passada — acho que foi explicar para as pessoas o que estávamos fazendo como empresa e como centro de pesquisa. É muito interessante, por que depois que as pessoas entendem, as portas se abrem — médicos querem colaborar, fisioterapeutas querem aplicar, pacientes querem receber esse tratamento, as pessoas querem investir. Mas até chegar o ponto que a gente conseguiu explicar exatamente o que estávamos fazendo, demorou um pouco.

Premiação do Demo Day do programa de aceleração da Startup Farm na USP

Quais são os maiores indícios que vocês estão no caminho certo?

Certamente o reconhecimento da ciência brasileira é um de nossos maiores orgulhos. Mas o que mais nos motiva, o que pega mais no coração — meu e de toda equipe — é ver a melhora em qualidade de vida que proporcionamos para pacientes. É muito interessante, porque quando você começa a ver, têm dezenas de casos que a forma de obter saúde apenas com remédios não é suficiente, então muitas vezes a gente entra como um tratamento complementar aos que já estão em andamento e obtemos resultados formidáveis.

Tivemos o caso de uma terapeuta que não sabiam mais o que fazer com a paciente — que já tinha se aposentado por invalidez — e conseguimos devolver uma vida saudável e sem debilidade para ela. Hoje essa terapeuta é uma das pessoas que traduz nossos equipamentos nos ensaios clínicos — é assim que a comunidade em torno da Bright vai se formando.

Por que você escolheu o crowdfunding de investimento? Qual você considera o grande diferencial desse meio de levantar recursos?

Criação de comunidade e validação pela comunidade. Estamos captando R$1,5M e seguramente poderíamos levantar esse dinheiro de outras formas — inclusive tive propostas de fundos de investimento — , mas essa validação pela comunidade é extremamente coletiva, então com isso a gente consegue aliar a captação do recurso com a validação de diversos tipos de profissionais, incluindo aqueles da área da saúde. Com isso, nós trazemos para perto da empresa pessoas interessantes, que abrem portas. Nós nem lançamos a campanha ainda e já temos grandes resultados. Só de dizer para alguns amigos médicos, fisioterapeutas e demais profissionais que estamos captando, muitos deles dizem “podem contar comigo”.

Qual você considera o grande diferencial da comunidade?

Sou um dos grandes fãs da Singularity University — eu digo isso porque um dos livros que eu tenho na cabeceira sobre empreendedorismo é o Exponencial Organization, e um dos principais pontos que ele ressalta ao longo do livro é justamente ter uma comunidade grande, dinâmica e que consiga construir juntos. A fotobiomodulação pode ser usada em inúmeras situações na área de saúde, então quanto mais a comunidade entender sobre fotobiomodulação, mais ela consegue propiciar insights. Para te citar exemplos, esses médicos que já são nossos investidores já falaram de aplicação em queimadas, regeneração e cicatrização de feridas, hospitais onde podemos entrar, clínicas para fazer parceria, etc.

Para se ter uma comunidade forte e participativa, ao invés da empresa ter que ter todas as ideias e correr atrás para implementá-las, as ideias vem até a empresa, então isso é um grande diferencial.

Qual você considera o principal impacto social gerado pela Bright?

Existem vários, mas certamente o principal é na saúde do paciente. Com essa terapia, conseguimos não ter efeitos colaterais e ainda assim fazer com que muitos deles voltem a ter uma vida saudável. Tem um tipo de dor muito grave que são as dores debilitantes — aquelas dores que são tão severas que impedem o paciente de ter atividades rotineiras. Então devolver a qualidade de vida a esses pacientes é certamente o maior impacto. Mas eu gostaria de citar outro impacto, que é o aumento do ganho dos profissionais de saúde, afinal a terapia feita com o nosso equipamento chega a ser entre 10 e 15 vezes mais rápida do que quando feita outros equipamentos, então consequentemente o terapeuta consegue agregar mais valor ao seu dia a dia e assim conseguimos aumentar a renda desses profissionais que são tão importantes para a nossa sociedade.

Qual a maior ambição da Bright?

A maior ambição da Bright é um impacto sonhável, que é melhorar a qualidade da saúde do Brasil como um todo, reduzindo o custo — o que é muito importante. Nas conversas que a gente tem com diretores, gestores e administradores de hospitais, sempre recai sobre esse ponto.

Eles sempre dizem: “Eu gosto da Bright porque não é uma empresa que está preocupada em simplesmente chegar e vender equipamento. É uma empresa que está preocupada em redução de custo para todo mundo”. O custo da saúde está tão equacionado que é possível ter muito lucro ainda reduzindo o gasto de vários players.

Equipe: Quem são as pessoas por trás da Bright?

Além de mim, temos o Jorge — responsável pela parte de captação e novos negócios, com vasta experiência em tecnologia e mercados financeiros e que há 6 anos atua na área da saúde — e o Reinaldo, nosso CEO, que foi executivo em empresas multinacionais de software ocupando posições de CEO e Vice-presidente para a América Latina. Temos muito orgulho de ter trazido ele para o nosso time, que é um executivo sênior, muito bem qualificado e que veio trabalhar na nossa startup porque confia naquilo que estamos fazendo. Esse é o time executivo.

Na parte de desenvolvimento, ainda temos o Hélio, nosso diretor de engenharia, formado em engenharia eletrônica, e que coordena a equipe de produto — formada pelo Rodrigo Araújo, que é nosso designer de produto, e Patrick Luna, que é formado no Senai e é o cara responsável por fazer nosso software. Nossa diretora clínica é a Dra. Nathali Cordeiro, que é fisioterapeuta com mestrado e doutorado com especialização em fotobiomodulação — que por diversas vezes ganhou o prêmio de melhor trabalho no congresso da Sociedade Americana de Laser Medicine & Surgery — e é apoiada pela Natalia, que é bióloga. Na administração e financeiro quem toca é o Henrique, e no marketing digital, o Matheus. Temos também a Vivian, que é americana e estuda Biologia na Universidade da Califórnia e veio fazer um estágio de summer na Bright.

É uma equipe muito enxuta mas ainda assim bem ativa.

Alguma mensagem final?

Eu acabei de vir do Hospital Albert Einstein. Estava conversando com um grupo de médicos, e o que está empolgando todos nós é a possibilidade de criar uma onda nova — ao invés de surfar uma que já existe. Estamos acostumados a dizer que trazemos tecnologia dos EUA e da Europa, e essa é uma das primeiras vezes que estamos com a oportunidade de criar algo.

Portanto, a mensagem final aos investidores é essa: vocês terão a oportunidade de entrar no começo de algo que já está se tornando grande e está crescendo exponencialmente. Esse será um divisor de águas na saúde mundial.

Para acessar a captação da Bright, clique aqui.


Impacto, saúde & tecnologia was originally published in Kria on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.

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