Investidor Como investir em startups através da internet

Como investir em startups através da internet

Poucas pessoas têm o tempo necessário para frequentar Demo Days, esses eventos onde empreendedores apresentam seu negócio em até cinco minutos. Menos gente ainda talvez tenha uma rede de relacionamento forte o suficiente para estar sempre atualizado sobre as dezenas de startups que surgem todo mês no país. Por isso, sites como o americano AngelList, com mais de duzentas e oitenta mil startups listadas, têm feito tanto barulho entre a comunidade de venture capital pelo mundo. Sem sair de casa, é possível hoje investir U$1.000 em uma empresa que, por exemplo, tenha passado pelo programa da Y Combinator, tida como a Harvard das aceleradoras (entre as graduadas estão AirbnbÛber e vários outras, com um valor total de portfólio estimado em R$33 bilhões!).

No Brasil, até muito recentemente, investir em startups pela internet era considerado inviável. Duas são possivelmente as principais razões para isso. Em primeiro lugar, porque as empresas que tentassem atrair investidores pela rede mundial de computadores teriam sua captação enquadrada como Oferta Pública, e com isso passariam a ter forte supervisão da CVM. Em segundo lugar, porque mesmo que utilizassem exceção concedida pela CVM para Micro-Empresas (ME) e Empresas de Pequeno Porte (EPP), o que simplifica muito a burocracia de uma Oferta Pública e reduz drasticamente seus custos, as empresas teriam que estar configuradas como uma Limitada (Ltda). E para quem não sabe, se tem uma coisa que uma Ltda não faz é limitar o risco do investidor, já que por mais minoritário que o sócio seja, ele ainda assim pode responder por erros fiscais ou trabalhistas cometidos pela empresa, por exemplo. Isso sem falar, que por não ter Ações, mas sim Quotas, fundadores de Ltdas teriam potencialmente uma enorme dificuldade de gerir seu negócio com inúmeros investidores/sócios em seu contrato social.

Quando eu decidi atacar esse problema, há aproximados dez meses, já existia bastante gente debruçada sobre ele. Em parte por eu ter chegado na hora certa e ter aprendido com o erro dos outros, em parte por ter contado com excelente apoio jurídico, acabou que a empresa da qual sou co-fundador foi a primeira dessas plataformas a ter uma oferta aprovada pela CVM, há pouco mais de um mês. Abaixo gostaria de resumir dois pontos fundamentais do modelo proposto por nós para se investir em startups pela internet:

Instrumento: para garantir uma operação rápida e com máxima proteção ao investidor, optamos por usar um Título de Dívida Conversível, um instrumento muito parecido com uma debênture conversível, que coloca o investidor num primeiro momento como credor de uma dívida, mas lhe dá a opção (e o direito) de converter essa dívida em participação da empresa investida, em situações previamente acordadas entre as partes.

Dívida conversível é provavelmente o veículo mais utilizado por investidores-anjos, aceleradoras e fundos de capital semente para investir em negócios embrionários. Como a maioria desses negócios tende a não dar certo, o investidor só vira realmente sócio daqueles negócios que realmente tiverem demonstrado excepcional performance, evitando assim toda a burocracia e o risco de uma sociedade prematura.

Governança: uma das grandes vantagens de se realizar investimentos-anjo através da internet é teoricamente a facilidade que o investidor tem de acompanhar a evolução dos negócios em um mesmo local, com informações padronizadas e periódicas. Acontece que muitos empreendedores não têm o compromisso ou a disciplina de prestar contas a seus investidores. Por isso, quando criamos o Título de Dívida no Kria, incluímos uma importante cláusula que obrigada o empreendedor a prestar contas quadrimestralmente do desempenho do seu negócio, mais especificamente sobre as métricas de sucesso que foram reportadas no momento da captação.

Um instrumento ágil e seguro, aliado a uma governança que possibilite relação transparente e produtiva entre empreendedores e investidores é o mínimo necessário para que essa nova modalidade de private-equity funcione no Brasil. Mesmo assim, investir em startups, na internet ou fora dela, continuará sendo uma atividade de extremo risco. A maioria dos negócios deixará de existir em menos de cinco anos. Por isso, comece devagar, diversifique seu portfólio em pelo menos 10–20 empresas, invista porque você ama a missão da empresa, e não apenas porque espera ficar rico.

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